Palestra promove a discussão sobre a representatividade feminina na literatura

Por Matheus Miranda

Quando se fala em literatura voltada para mulheres, logo se pensa em gêneros ‘‘literatura de mulherzinha’’. Narrativas recheadas de emoções, humor e com respostas para as ‘‘maiores’’ dúvidas femininas. Para quebrar esses paradigmas sobre narrativas que são voltadas ao público feminino e escritoras que não conseguem o seu espaço na literatura, a XII Bienal Internacional do Livro proporcionou no sábado (22), um diálogo com o público acerca da representatividade feminina na literatura.

A palestra ‘‘De Raquel de Queiroz a J.K Rowling: O crescimento feminino na literatura’’, teve como mediadora Renata Brito, diretora da editora Fábrica do Mito, e teve como convidadas as escritoras Mellyne Barbosa, Kami Girão, Amanda Roosevelt e Maria Luiza Artese, todas de Fortaleza.

A conferência teve como objetivo discutir o crescimento de escritoras na literatura nos últimos anos, e mesmo com grandes dificuldades em promover os seu contos e narrativas, sempre conseguem estar entre os livros mais vendidos. O maior exemplo disso, é a própria escritora J.K Rowling com a sua série de livros, da saga Harry Potter. ‘‘Viemos a perceber agora, o crescimento de mulheres na literatura por conta da J.K Rowling mas, o gênero que vem predominando são os contos eróticos, como por exemplo o livro da escritora E.L James, Cinquenta Tons de Cinza’’, destacou Kami Girão, 21, escritora dedicada ao gênero de ficção e fantasia.

‘‘A literatura erótica vem ao mesmo tempo criando portas para novas escritoras a esse gênero mas, vem fechando para outros tipos de narrativas’’, comentou Mellyne Barbosa, 25, escritora e diretora da Fábrica do Mito que percebe que os livros feitos desse gênero, sempre estão no topo de os mais vendidos e também o que o público jovem consome.

Guerreiras da Literatura

O ponto alto da palestra foi quando as escritoras falaram que durante muito tempo, a literatura foi um território ocupado unicamente pelos homens. E que houve uma demora para que se abrisse um espaço mais consistente para as mulheres, para que estas  pudessem se expressar. ‘‘Igualmente, por muito tempo, a única imagem feminina retratada nas obras literárias era reflexo da visão de autores (homens) que as descreviam, na maioria das vezes, como mulheres frágeis e submissas’’, ressaltou a escritora de contos do gênero romance, Maria Luiza, de 21 anos.

‘‘Igualmente, por muito tempo, a única imagem feminina retratada nas obras literárias era reflexo da visão de autores (homens) que as descreviam, na maioria das vezes, como mulheres frágeis e submissas’’(Maria Luiza)

Foi nadando contra essa corrente que muitas escritoras lutaram para conquistar o reconhecimento de suas narrativas. Emily Brontë, autora de ‘‘O Morro dos Ventos Uivantes’’, por exemplo, se viu obrigada a escrever com o pseudônimo masculino de Ellis Bell. Jane Austen, de ‘‘Orgulho e Preconceito’’ e ‘‘Razão e Sensibilidade’’, foi mais além e conseguiu publicar livros em uma época em que a mulher ainda não era reconhecida intelectualmente.

O debate mostrou que existe uma grande dificuldade de autores do sexo masculino em descrever mulheres em suas obras, e que muitos só conseguem caracterizá-la em dois extremos. A pobre e indefesa garota, que sempre vai precisar de um herói para salvá-la ou como uma mulher perigosa e que sempre vai tentar seduzir os homens para conseguir os seus objetivos. ‘‘Acho que não só os escritores tenham essa dificuldade, nós mesmas temos em descrevê-los em nossas narrativas, tanto que focamos mais em nossas personagens femininas e meio que os masculinos fiquem menos ou até irrelevantes na história’’, argumentou a tatuadora, desenhista e escritora Amanda Roosevelt, 28, que se reconhece apoiadora do movimento feminista aqui, em Fortaleza.

A voz do público

A discussão não se limitou apenas aos palestrantes, o público depois teve a oportunidade de opinar sobre o seu ponto de vista em relação ao crescimento de escritoras femininas na literatura. Amanda Boemia, 28, percebeu um aumento expressivo do público feminino não só pela literatura, mas nos mangás e revistas em quadrinhos. ‘‘Consegui identificar nesses últimos anos que, as meninas e adolescentes estão começando a ler mais quadrinhos por conta de personagens femininas fortes que temos atualmente na literatura e também nos cinemas’’, afirmou Amanda. Mesmo para quem não se interessa muito por escritoras femininas na literatura, vale a pena tentar conferir um pouco sobre os contos e suas narrativas que sempre vem se revolucionando ao passar de gerações.

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