As estórias de Kiusam de Oliveira retratadas na Bienal do Livro

Por Letícia Feitosa e Luiza Ester

“Meu cabelo é muito bom! Porque ele é fofo, bonito e cheiroso. Vocês estão com dor de cotovelo… Porque vocês não podem carregar o mundo nos cabelos, como eu posso” é assim que Tayó, personagem do livro “O mundo no Black Power de Tayó”, de Kiusam de Oliveira, contesta o bullying, feito por seus colegas de sala, com a sua ancestralidade africana. A “Afrocontação”, realizada pela própria autora, aconteceu durante a XII Bienal Internacional do Livro do Ceará, na última sexta (21).

As obras de Kiusam são direcionadas à literatura infantil e trazem mensagens para empoderar crianças negras. Ainda são inúmeras as crianças afros que são alvo do racismo histórico no Brasil. Os traços afrodescentes são, invariavelmente, a causa desse bullying.  Em busca de mudar essa realidade, Kiusam escreveu a história de Tayó, menina negra que ouvia piadas maldosas de seus colegas de classe por conta de seu cabelo afro. No livro, a criança de seis anos responde aos comentários racistas com muito orgulho de seus traços.

Foi uma árdua tarefa escolher as ilustrações de “O mundo no Black Power de Tayó”, pois elas tendiam a ser caricatas. Como os negros, diversas vezes, não são protagonistas das histórias em que são retratados, não havia assimilação da pequena Tayó como Kiusam queria. Normalmente, a desenhavam com traços que a deixavam, segundo ela, “feia”. A “pequena Tayózinha” (como Kiusam se refere com muito orgulho) é “linda e empoderada”.

Devido a esse empoderamento o livro não foi premiado com Prêmio Jabuti de Literatura, importante reconhecimento da literatura brasileira. Kiusam considera que a avaliadora deduziu que uma criança de seis anos não falaria como a autora escreveu, além de a resposta dada para os colegas de sala não ter sido suficiente para o que a personagem sofreu. “Eu estou transformando algo que é muito real e concreto, que acontece todos os dias aqui, com uma criança negra… Em arte, para possibilitar a discussão dessa temática via sensível”, esclarece.

Capas dos livros “O mar que banha a ilha de Goré” e “O mundo no Black Power de Tayó”. Foto: Lucas Santiago

A Afrocontação também teve breve espaço para um trecho de outro livro de Kiusam de Oliveira, “O mar que banha a ilha de Goré”, prefaciado pelo cientista social e escritor Carlos Moore, pesquisador dedicado a documentar a história da cultura negra. A história, ambientada no Senegal, onde fica a Ilha de Goré, retrata a conversa de Kika, uma menina brasileira, com o mar.

As leituras trouxeram uma discussão sobre representatividade do negro,  principalmente na literatura infantil e como isso pode abalar a autoestima das crianças afro-brasileiras. Maria Silá, 23, estudante da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), acredita na importância dessas histórias para crianças negras. “Ajuda a gente, né!? Ajuda os meninos negros a sobressair no caso do preconceito. É muito bom, gostei muito”, reforça.

O black power é, certamente, o gancho para a temática descrita. Adriana Costa Nascimento, 47, diz ter interesse na questão da construção da identidade negra e a ligação que isso tem com o cabelo. “Adorei a história dela, que fala da questão do cabelo que é foco… que é interesse meu”, ressalta.

Kiusam busca um caminho viável para que o público infantil, alvo de racismo, possa se empoderar por intermédio de ações lúdicas. Para a autora, o momento foi de muita troca, pois é fundamental discutir questões voltadas à valorização e sensibilização da cultura negra, principalmente quando se trata de crianças. “Eu defendo isso, com muita arte e cultura a gente consegue quebrar barreiras para temas extremamente dolorosos ou difíceis de serem tocados […] E aqui foi assim, objetivo atingido, foi maravilhoso, uma energia incrível!”, conta.

“Eu defendo isso, com muita arte e cultura a gente consegue quebrar barreiras para temas extremamente dolorosos ou difíceis de serem tocados […] E aqui foi assim, objetivo atingido, foi maravilhoso, uma energia incrível!” (Kiusam de Oliveira)

Quem é Kiusam?
Kiusam de Oliveira. Foto: divulgação

Kiusam de Oliveira é bailarina, coreógrafa e ativista do movimento negro há quase 30 anos, além de ser uma contadora de histórias. É doutora em Educação e mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Tem vasta experiência em sala de aula e é autora de “Omo-Oba – Histórias de Princesas”, “O mundo no Black Power de Tayó” e “O mar que banha a ilha de Goré”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php