Fortaleza é a capital com mais homicídios por armas de fogo

Por Matheus Miranda

‘‘Assustador’’ esse é o adjetivo mais usado pelos cidadãos da cidade de Fortaleza em relação ao aumento considerável de crimes violentos letais e intencionais (CVLIs). Fortaleza ocupa o  quarto lugar do ranking que elenca as maiores taxas de mortes, em 2017. Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) do Ceará, a capital cearense tem a maior taxa de homicídios por armas de fogo, com 81,5 vítimas para cada 100 mil habitantes.

Esse tipo de crime foi o que vitimou o irmão da empregada doméstica Luciana Batista, 38, em 2015. Maurício Batista, de 18 anos, estava no carro com a sua irmã e deixava a namorada em casa, quando um homem armado disparou um tiro acertando seu olho direito. ‘‘O executor não esboçou nenhuma intenção em abordá-lo. Simplesmente atirou’’. Maurício ficou três dias internado e teve morte cerebral.

‘‘O executor não esboçou nenhuma intenção em abordá-lo. Simplesmente atirou’’ (Luciana Batista)

Da virada do século até a década atual, milhares de situações assim se repetiram, fazendo com que o número de homicídios por arma de fogo em Fortaleza saltasse de 562 em 2007 para 2.035 em 2017 (variação de 380%). É o que explica o sociólogo Vicente Martins, 51, do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Motivos

Segundo o pesquisador, a dinâmica de mortes intencionais provocadas por arma de fogo em Fortaleza é bastante complexa. O exemplo claro disto é, a expansão do tráfico de drogas que passou a deter territórios maiores, e a ter acesso a armas com um grande número de jovens entre a população e a cidade (segundo o livro ‘‘Mapa da Violência’’, pessoas entre 15 e 29 anos, principalmente homens, são a maioria das vítimas de homicídios por arma de fogo no Brasil). O crescimento urbano desordenado e o desenvolvimento econômico são alguns dos fatores que provocam a desigualdade. (foto)

‘‘Em geral, as pessoas morrem em locais próximos de suas residências e em áreas de vulnerabilidade, precárias do ponto de vista de saneamento e acesso a serviços. Ou seja, já há uma realidade ali desafiadora para os moradores e, aí, entra o componente da violência, que cria uma grande devastação para uma área que já é bastante vulnerável’’, relata o sociólogo.

Falha da política e da justiça

Outro componente dessa dinâmica é a incapacidade da Polícia Civil e da Justiça de acompanhar a profusão de crimes. De acordo com com o ex-delegado da polícia federal Joaquim Albuquerque, 54, a Polícia Civil está perdendo a sua capacidade de investigar e dar respostas mais rápidas e ágeis. ‘‘Os crimes se sucedem a cada ano que se passa, e a polícia não consegue identificar os autores e puni-los. Temos também um sistema judiciário ainda incapaz de dar conta dessa expansão de ocorrências que acontece em Fortaleza’’, opina Albuquerque. (foto)

‘‘Temos também um sistema judiciário ainda incapaz de dar conta dessa expansão de ocorrências que acontece em Fortaleza’’ (Joaquim Albuquerque)

O assassino de Maurício Batista reflete essa realidade. Segundo Luciana Batista, as investigações sobre a morte do irmão não chegaram aos verdadeiros autores nem à motivação do crime. “Teve muita investigação, mas com pouco resultado. À época, houve muita pressão da imprensa e a polícia trabalhou até como resposta à mídia. A gente tem convicção de que o resultado não foi real.”

De acordo com a SSPDS , desde 2014, às forças de segurança do Ceará fazem um trabalho integrado entre as polícias Civil e Militar e o Corpo de Bombeiros que foi batizado de Em Defesa da Vida. Todo o estado foi dividido em 18 Áreas Integradas de Segurança, sendo seis em Fortaleza. Cada área tem metas de redução de crimes e os locais onde há ocorrências são georreferenciados, com informações sobre dia e horário dos fatos, para indicar possíveis ações de combate à criminalidade. Segundo a secretaria, além da redução no número de mortes violentas, as ações do programa também possibilitaram a apreensão de mais de 10 mil armas nos últimos 19 meses.

O projeto Em Defesa da Vida tinha como meta a redução de 6% no número de crimes violentos letais no estado. Para o sociólogo Martins, houve uma racionalização da ação policial no Ceará, com o melhor gerenciamento do efetivo e o estabelecimento de metas para alcançar os resultados.       

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php