Conscientização é o caminho para evitar o desperdício de alimentos

Por Luiza Ester

Todos os dias milhares de quilos de alimentos são desperdiçados de diversas formas. A ONG Banco de Alimentos alerta que isso é verificado no excesso de produção, na forma de estocagem e no transporte, pois boa parte da produção fica nas estradas por caírem dos caminhões. Mas é também na cozinha onde ocorre boa parte desse desperdício. Para muitos brasileiros, manter a mesa farta é um hábito (para os que podem), e muitos não têm noção da quantidade que efetivamente precisa, o que pode gerar desperdícios.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) de 2013, por ano são jogadas fora 1,3 bilhão de toneladas de alimentos. Desse número, o desperdício acontece no campo, durante o manuseio e o transporte, na comercialização e no abastecimento, além do próprio consumo.

Pedro Frade, gastrônomo mineiro. Foto: Divulgação

Pedro Frade, 23, autor do site “Petit Gastrô”, conta em um de seus artigos gastronômicos que “o problema do desperdício não é novo, ocorre um aumento considerável a cada ano, e a tendência é sempre piorar devido à pequena mobilização para que essa situação seja contornada”.

Já o Instituto Akatu, organização que trabalha pela conscientização e mobilização da sociedade para o consumo, informa que cada brasileiro gera em torno de 1kg de lixo por dia, e, cerca de 58% desse total é representado por lixo orgânico, formado por restos de comida. Ao mesmo tempo, todos os dias há inúmeras pessoas que morrem de fome. Ainda de acordo com a FAO, 805 milhões de pessoas no mundo sofrem desse mal. No Brasil, 3,4 milhões estão em situação de insegurança alimentar, fator que preocupa como podem ser efetivadas medidas para tornar essa realidade reversível.

A postura dos países ricos parece ser indiferente, uma vez que desperdiçam quase a mesma quantidade do que é produzido na África subsaariana, segundo Alan Bojanic, representante da FAO no Brasil, em artigo publicado para o site Uol. Diante disso, alguns restaurantes e diversas ONG’s passaram a se preocupar com o destino dos alimentos.

Políticas para a redução do desperdício

O Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), desde 2012, conta com o programa “5 menos que são mais”, que realiza consultorias para orientar os empresários, na busca de soluções para a utilização responsável de seus recursos. Isso traz benefícios econômicos associados à melhoria do desempenho ambiental do negócio. Assim, é possível mostrar aos próprios empresários que, tornando efetiva a ideia, os lucros podem até aumentar.

Em 2012, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo, deu início a uma maciça campanha de conscientização. Entre fevereiro e outubro do mesmo ano, distribuiu cupons de sorteios aos funcionários que entregavam a bandeja vazia. Assim, os 110 kg de alimentos que eram jogados foram diminuídos para 50 kg.

A ONG Banco de Alimentos atua no estado de São Paulo, na redistribuição da comida própria para o consumo que  seria descartada. Por meio do “Colheita Urbana”, repassam os alimentos em boas condições, de restaurantes doadores, para instituições sociais. Voluntários participantes desse projeto alimentam cerca de 22mil pessoas, com refeições que iriam para o lixo.

Alimentação Coletiva

Existe um ramo da nutrição que consiste no planejamento e no controle da qualidade das refeições, tratando tanto do produto final, como também das condições impostas durante o seu preparo. Por se tratar de alimentação “para as coletividades”, trabalha em restaurantes, escolas, indústrias etc. Além disso, lidam com a segurança dos alimentos, se preocupando também com a sua quantidade e qualidade.

Carolinne Reinaldo, professora de Nutrição. Foto: Luiza Ester

Segundo Carolinne Reinaldo, 35, professora de Nutrição da Unifor e especialista no assunto, um dos primeiros fatores a serem percebidos é o planejamento correto. Com o intuito de evitar o desperdício, é necessário traçar “fatores de correção”. “Ao descascar um legume ou uma fruta, como está sendo? É preciso ver como está o equipamento… se está tirando mais do que deveria, e isso também entra no desperdício de alimentos. É o que a gente chama de alguns indicadores internos, a gente trabalha onde é que está ocorrendo esse desperdício”, explica. Ela lembra que o brasileiro tem o hábito de “comer com os olhos”. Assim, são trabalhadas campanhas educativas, uma vez que não é comum o costume de pensar na questão ambiental quando se está fazendo uma refeição.

Para isso, é essencial elaborar alguns fatores indicadores. O primeiro deles é o resto-ingesta, formado basicamente por lixo orgânico, pesado e dividido pelo número de pessoas, tendo acesso ao percentual que o desperdício representa em relação à refeição produzida. Outro é o resto per capita, compreendido pela ação de pesar o que foi deixado nos pratos e dividi-lo pelo número de consumidores.

A professora alerta que é preciso trabalhar com a quantidade de comida exata. “A primeira coisa é você fazer e aproveitar logo no dia posterior, não deixar muito tempo. A outra coisa é fazer o armazenamento de forma correta, desde frutas e verduras”, complementa. Além disso, hoje, existem diversos meios de aproveitar o que seria lixo, como, por exemplo, as cascas de frutas. Para os restaurantes, Carolinne afirma que é basicamente o mesmo conceito, mas partindo de uma “visão macro”.

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