Cresce a demanda por cursos de teatro em Fortaleza

Por Letícia Feitosa

O teatro “resiste e sobrevive a tudo, à guerra, à censura, à penúria”, disse a atriz francesa Isabelle Huppert na mensagem oficial da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) para o Dia Mundial do Teatro, comemorado em 27 de março. Criado pela mesma organização, em 1961, todo dia 27 de março, muitas cidades do mundo fazem programações para saudar as artes cênicas, como peças e oficinas. O mundo teatral tornou-se atraente para quem deseja seguir no caminho das artes, ou apenas para quem pretende perder a timidez.

Plínio Morais para as fotos do espetáculo “Há algo estranho nas coisas que não são ditas” do coletivo FARPA. Foto: Roberta de Oliveira

A arte cênica é umas das manifestações artísticas mais antigas da humanidade, e oferece benefícios a quem o faz. Em entrevista ao site Educar para Crescer, a coordenadora e orientadora cênica da Casa do Teatro em São Paulo, Luciana Barboza, diz que “além de promover o autoconhecimento e desenvolver a autoconfiança, fazer teatro é um exercício de escuta do próximo”. Ir à uma peça também é benéfico, segundo um estudo feito pela Universidade de Arkansas, assistir a um espetáculo ao vivo desencadeia em uma maior tolerância e a empatia nas pessoas, além de aumentar o vocabulário, e desenvolver uma capacidade de entender as emoções de outras pessoas.

Plínio Morais, 20, estudante de Licenciatura em Teatro na Universidade Federal do Ceará (UFC), diz que sempre manteve o contato com atividades artísticas. “Estudei em uma escola muito voltada para o social e para a cultura popular. Visitávamos o Centro Dragão do Mar, os índios Tapebas, dançamos Reisado nos festivais de final do ano, nos apresentamos no Teatro SESC Emiliano Queiroz, Teatro Cine São Luiz. Minha infância foi recheada dessas vivências”, lembra. Quando prestou vestibular, escolheu o Teatro e, para ele, essa não foi uma escolha planejada. “Eu não tinha uma justificativa pronta. Acho que por toda a minha vivência, essa decisão veio como um instinto mesmo”, conta.

“Estudei em uma escola muito voltada para o social e para a cultura popular. Visitávamos o Centro Dragão do Mar, os índios Tapebas, dançamos Reisado nos festivais de final do ano, nos apresentamos no Teatro SESC Emiliano Queiroz, Teatro Cine São Luiz. Minha infância foi recheada dessas vivências” (Plínio Morais)

Muitos que se consideram tímidos vão às aulas de artes cênicas e conseguem “se soltar mais”. É o caso de Amanda Ingridy, 21, que também faz o curso de Licenciatura em Teatro da UFC. “Por ser tímida desde criança, achei que não levava jeito para o teatro, mas tive uma experiência no teatro da igreja que eu frequentava e foi um sentimento único”, fala. Inspirada em atores de filmes, como Jake Gylenhaal e Heath Ledger, Amanda decidiu ser atriz e afirma ainda estar trabalhando para se superar a cada dia. “Tive que ir me desprendendo aos poucos, tomando consciência de cada parte do meu corpo. E essa consciência plena te deixa no estado quase onisciente do próprio ser e nesse estado não há espaço para pudores, você é inteiro naquele momento. Esse é um processo e ainda estou no meio dele”, afirma.

Euriano Gomes, 25, é técnico de segurança do trabalho e apaixonado por teatro. O seu interesse pelas artes cênicas também surgiu na infância. “Minhas brincadeiras sempre foram voltadas para a arte”, fala. Gomes é tímido, mas encontra nos palcos uma maneira de se expressar.  “O teatro é como se fosse um portal onde me encontro. A energia que recebo do palco me transforma de uma forma inexplicável. É uma atmosfera riquíssima”, afirma.

“O teatro é como se fosse um portal onde me encontro. A energia que recebo do palco me transforma de uma forma inexplicável. É uma atmosfera riquíssima” (Euriano Gomes)

O teatro na cidade de Fortaleza

Coletivos teatrais recheiam a programação da capital cearense, além dos espaços culturais que dispõem de oficinas e peças para todas as idades. Plínio, junto com colegas do curso, criaram o FARPA, um coletivo que tem como objetivo fazer teatro fora dos muros da Universidade. Um dos principais trabalhos do Farpa foi o espetáculo “Há algo estranho nas coisas que não são ditas”, que foi resultado de 10 meses de estudo. “Nos apresentamos nos palcos do SESC Iracema, SESC Emiliano Queiroz, Theatro José de Alencar, Teatro Carlos Câmara, Teatro Universitário e nossa última apresentação foi dentro do Festival de Teatro de Fortaleza 2016”, relembra.

Luis Carlos Shinoda, 27, um dos fundadores, ator e diretor artístico do Cangaias Coletivo Teatral, conta que se interessou pelas artes cênicas quando viu um espetáculo feito na comunidade onde morava. Shinoda afirma ter duas grandes inspirações: Dylla Costa, sua primeira diretora teatral e João Andrade Joca, professor do curso de princípios básicos de teatro, do Theatro José de Alencar. “Me formei como ator neste curso em 2009, e foi muito significativo para mim, não só artisticamente, mas principalmente pela formação ética, política e social como indivíduo”, lembra.

Shinoda no espetáculo “Miau”, do coletivo teatral Cangaias. Foto: Jotacílio Martins

Shinoda diz que o Cangaias surgiu em 2005 e tem dois momentos, uma primeira fase mais informal, em Maracanaú, em que se apresentavam em postos de saúde, escolas, secretarias do município, e produziam peças por diversão. E uma segunda parte, em 2012, já em Fortaleza, quando viraram um grupo de teatro mais profissional. O espetáculo “Miau” foi o primeiro trabalho do coletivo que tem a formação oficial do grupo, formado por Shinoda, Angélica Nunes e Adonai Elias.

Além de produzir peças, o Cangaias oferecem o Curso Livre de Práticas Teatrais, no Café Teatro das Marias. “É a primeira vez [que oferecem o curso]. Várias pessoas que seguem, e assistem o grupo, perguntavam se tínhamos um curso de formação em teatro. Fomos acreditando na ideia. Estudamos alguns cursos e pensamos em fazer algo diferente, oferecendo práticas plurais do teatro, como o estudo da voz, da expressão corporal, do teatro popular e da dramaturgia”, explica.

Para Shinoda o teatro em Fortaleza está em ascensão, apesar dos poucos locais de apresentação. “Temos poucos centros culturais e casas de espetáculos. Aí o governo tem que acordar e suprir essa demanda. São muitos grupos, mas a pouca programação é devido aos poucos espaços para apresentarmos nossos espetáculos. Mas vejo que mesmo assim, o teatro que se faz em Fortaleza é bem diverso, e com certeza vem crescendo cada vez mais”, opina. Plínio Morais também crer na diversidade teatral da cidade. “Fortaleza é uma cidade onde o teatro é presente. Há muitos grupos de teatro que realizam pesquisas, que têm espetáculos em cartaz, grupos novos que surgem na vontade de fazer teatro. Sempre há peças em cartaz, opção não falta, é só sair da caixinha e ir atrás”, afirma.

“Temos poucos centros culturais e casas de espetáculos. Aí o governo tem que acordar e suprir essa demanda. São muitos grupos, mas a pouca programação é devido aos poucos espaços para apresentarmos nossos espetáculos. Mas vejo que mesmo assim, o teatro que se faz em Fortaleza é bem diverso, e com certeza vem crescendo cada vez mais” (Luis Carlos Shinoda)

Experiência do Repórter – Fazer teatro como forma de desinibir
Foto: Arquivo Pessoal

Comecei a fazer teatro há um mês. Explorar essa arte sempre foi uma curiosidade minha, mas nunca tive a chance de fazê-la. Prestei vestibular para Jornalismo na Universidade de Fortaleza (Unifor) e para Licenciatura em Teatro na Universidade Federal do Ceará. Passei nas duas, mas na hora da escolha, decidi cursar o mais seguro e deixei a vontade de estudar as artes cênicas para depois.

Estudo Jornalismo, mas sempre mantive o desejo de viver a experiência nos palcos. Eu também me tornei muito tímida e precisava fazer algo que me “destravasse”, principalmente para a profissão de repórter, e o teatro parecia a melhor opção. Depois de um ano na faculdade de Jornalismo, eu conheci uma colega que almejava o mesmo que eu. Então, uni o útil ao agradável e, junto com essa amiga, procurei cursos de teatro em Fortaleza.

No início do ano, encontramos o Curso Livre de Práticas Teatrais, oferecido pelo Cangaias Coletivo Teatral. Com muito nervosismo, fui para a primeira aula sem saber o que esperar. Logo no primeiro dia, no módulo de expressão corporal, eu já me senti acolhida pela comunidade teatral. É interessante perceber que eu consigo me soltar nas aulas, porque lá é um local sem julgamentos, onde todos estão na mesma situação, explorando essa arte em conjunto.

Infografia: Ravelle Gadelha

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