Maracatu como porta voz da cultura africana

Por Rhuan de Castro

Em clima de carnaval, o Brasil caminha mais uma vez para uma época de comemorações e festas. Dentre as apresentações, existe o maracatu, um ritmo musical baseado em instrumentos como tarol, zabumba e ganzas, encontrado pelas ruas do país nesta época de carnaval. Os dançarinos executam coreografias específicas, semelhantes às danças do candomblé, tornando o maracatu mais que uma dança,  mas uma manifestação da cultura africana.  

Originado em Pernambuco, em meados do século XVIII, o ritmo surgiu pela miscigenação musical das culturas portuguesa, indígena e africana. Com uma forte ligação religiosa às irmandades negras do Rosário, o maracatu é uma dança de cortejo associada à corte do congado, na qual os dançarinos representam personagens históricos, embaixadores, reis e rainhas.

De acordo com o site Bloco de Pedra, existem dois tipos de maracatu bem distintos. O Maracatu Nação, também conhecido como maracatu de Baque Virado, é o tipo de maracatu mais antigo do Carnaval do Recife. É constituído de 30 a 50 participantes caracterizados de Porta-estandarte, Damas do Paço, Rei, Rainha, figuras da corte, Yabás e Batuqueiros.

Já o Maracatu Rural é uma manifestação cultural da música folclórica pernambucana. Também conhecido como Maracatu de Baque Solto, diferencia-se do Baque Virado, em organização, ritmo e personagens.  Proveniente da mistura de vários folguedos (festas populares que ocorrem em datas determinadas), o cortejo traz entre seus personagens, a Porta Bandeira, a Dama do paço, Porta Buquês, Baianas, Caboclos, Caboclos de Lança, Caboclos de Pena e Boneca Aurora.

No Ceará, o maracatu também é bem presente, principalmente em Fortaleza. A manifestação cultural chegou na cidade em 1936 como uma dança de origem afrodescendente sendo agregada ao carnaval. Além dos instrumentos tradicionais do maracatu, o maracatu cearense apresenta o Ferro (Triangulo feito com ferro com o timbre bastante grave) como instrumento característico.

Pingo de Fortaleza atua na manifestação do Maracatu em Fortaleza. Foto: Reprodução.

Autor dos livros “Maracatu Az de Ouro – 70 anos de memórias, loas e batuques” e “Singular e Plural – a História e a Diversidade Ritmica do Maracatu Cearense Contemporâneo”, João Wanderley Roberto Militão, mais conhecido como Pingo de Fortaleza, fala um pouco sobre a sua relação com esse ritmo. “Minha relação com o maracatu se deu através das minhas composições. A partir do Maculelê, minha primeira composição nesse universo temático, em todos os meus discos eu acabei vinculando uma canção a esta sonoridade”, conta.

Pingo é presidente da Associação Solar, um programa de formação cultural continuada que tem como objetivo agregar valor ao maracatu. O compositor explica como se dá o trabalho na associação. “O trabalho é feito através da experimentação prática. Ocorrem oficinas com Descartes Gadelha (artista plástico e entusiasta do marcatu em Fortaleza), ensaios, seminários e apresentações durante todo o ano. Temos brincantes de todas as áreas e origens sociais, opções de gênero e religiosidade”.

Pingo de Fortaleza considera que apesar de parte da população ter um estranhamento com a temática, o maracatu é capaz de tocar o público. “As pessoas são sensíveis, pois lhes toca a música, lhes toca a questão de todo o sentimento de identidade com os elementos da cultura. Parte da população tem um estranhamento, mas nada que um processo de crescimento da manifestação não resolva.”, afirma.

“Existe uma questão de empatia em geral com o que nos é ancestral. As pessoas são sensíveis, pois lhes toca a música, lhes toca a questão de todo o sentimento de identidade com os elementos da cultura”. (Pingo de Fortaleza)

Fernando Valente, membro do grupo Maracatu Solar,acredita que o maracatu é uma forma de promover a tolerância e combater o racismo. “Por ser uma manifestação cultural remanescente das etnias de matrizes africanas, o maracatu promove a tolerância racial através dos desfiles, pois mostra à sociedade a riqueza das tradições africanas”, explica.

“Por ser uma manifestação cultural remanescente das etnias de matrizes africanas, o maracatu promove a tolerância racial através dos desfiles, pois mostra à sociedade a riqueza das tradições africanas”. (Fernando Valente)  

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