“A minha vida é uma obra de fricção”

Por Edson Baima e Sarah Castro

O nome Serginho Gouveia pode não parecer familiar para algumas pessoas, mas a maioria dos cidadãos fortalezenses o conhecem mesmo sem saber. Diariamente nos deparamos com algumas frases de sua autoria nas ruas da capital cearense, assinadas apenas com a sigla “SG”.

Desde o primeiro contato com o Jornalismo NIC, Serginho foi bastante solícito. Muito receptivo, abriu as portas de sua casa, lugar que divide com seus dois cachorros, Cazé e Filó, para nos receber. Lá encontramos fragmentos de seu trabalho por todas as partes. Nos surpreendemos com o ambiente descontraído. Com uma decoração bastante moderna, quadros grafados com estêncil, acessórios vintage, grafite nas paredes, latas de spray no teto e uma mesa de sinuca no meio da sala. Assim como sua personalidade, sua casa exala criatividade.

Sérgio Luiz Benevides Gouveia Filho, 38, se define como uma pessoa muito ansiosa e intensa, com uma veia criativa bastante evidente. Amante da escrita, quando adolescente, depositava sua energia criativa em cartinhas para as namoradas. Ironicamente, mesmo reprovado em Português na 8ª série, trabalha hoje com as palavras, como redator publicitário.

Nasceu em Fortaleza, cidade que é berço de suas memórias, onde desenvolveu seus projetos, e é o lugar onde pretende permanecer. “Já tive oportunidade de sair daqui, ir para São Paulo, que é um point da Comunicação. Mas eu não quis, porque gosto da minha cidade. Quero levar minha vida aqui e vou fazer de tudo pra ficar aqui”, comenta, confiante, Serginho.

O livro para inspirações. Foto: Pedro Vidal

Em 1998, a convite de um amigo, ele ingressou no curso de Publicidade e Propaganda na Universidade de Fortaleza (Unifor). Serginho é grato à sua graduação pelo sucesso do seu projeto (Beijo na Cidade). Foi com sua experiência como redator publicitário que aprendeu a técnica de expressar toda uma ideia com apenas uma frase e conseguir falar de qualquer assunto de uma maneira criativa. “Falar de um sentimento, numa frase, é muito difícil. As pessoas escrevem um livro inteiro falando de modo que fique mais fácil de explicar. Sintetizar um sentimento em uma frase é bem mais difícil. Nós, redatores publicitários, aprendemos a passar uma mensagem de uma forma curta, objetiva e criativa. Eu me aprimorei nisso”, relata Sérgio.

O frasista (como também se identifica) leu, anos depois, o phrase book de Roberto Duailibi e se encantou pelo mundo das frases. Foi assim, que em 2009, criou o blog “Confissões de um phrase book”, que é abastecido frequentemente e possui cerca de 600 frases autorais.

Beijo na Cidade

O projeto autoral “Beijo na Cidade”, que mescla suas frases com intervenção urbana, nasceu no final de 2014. O redator, que já tinha bastante material no seu blog, teve a ideia de criar um meio de propagar ainda mais o seu trabalho como frasista. A princípio, a iniciativa possuía apenas 15 frases. Mas ao longo do ano passado, foram escolhidas mais de 30. Assim, Sérgio selecionou suas frases mais inspiradoras, que mais mexiam com as pessoas e as colocou nas ruas em forma de estêncil. “Não é uma ideia original colocar frase na rua, mas como eu achava as minhas frases boas, eu queria que chegassem a mais pessoas. Na internet elas podem até chegar, mas a rua é mais democrática e atinge mais. Então resolvi criar o projeto”, explica o frasista.

Hoje, o projeto conta com mais de 40 frases espalhadas pela cidade. Todo o processo é feito pelo autor: criação, produção, escolha do material e das frases, até sua aplicação nas ruas.

O objetivo do projeto é conter frases inspiradoras, nada agressivo, irônico ou sarcástico. Ou seja, é um breve momento em que as pessoas param para refletir sobre questões leves, que inspiram e retratam o amor. “O projeto é legal por conta disso, porque eu escrevo minhas vivências e as pessoas se identificam com experiências parecidas com as minhas. O lance da interpretação é que não é uma coisa fechada, mas que tenha uma interpretação livre, da maneira que você quiser.”

Arte urbana?

O publicitário possui uma definição própria sobre o seu projeto nas ruas. Não se enquadrando em apenas um tipo de trabalho, Serginho considera seu trabalho “mais como uma poesia urbana do que como uma arte urbana. Para mim, o estêncil não é arte, é a técnica que uso para colocar as minhas frases na rua. Se me agradam e agradam às pessoas que leem o blog, por que não iria agradar às pessoas na rua?”, questiona Sérgio.

O futuro do Beijo
O ateliê. Foto: Pedro Vidal

A ambição de Serginho, quando se trata do seu projeto, é poder espalhar sua poesia urbana pelo País. O primeiro passo ao rumo do seu objetivo já foi dado. Nesta semana, a cidade do Rio de Janeiro foi marcada, em alguns pontos, com o “Beijo na Cidade”.

O artista não pode espalhar, da maneira que sonha, suas frases pelo Brasil, uma vez que faz isso de maneira autônoma. Um desejo do profissional seria um patrocínio: “Eu não ganho nada, não tenho apoio, eu que compro tudo. Eu vivo de Propaganda, mas gostaria muito de viver das minhas criações. O Projeto não é comercial, mas ele pode se tornar”, almeja o frasista.

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